Essa teoria tenho certeza que você não conhece!
Como surgiram os sinais de pontuação
 A humanidade, por meio de lendas e mitos, tem explicações para o surgimento de diversas coisas que existem no mundo. Porém, nunca ouvi nenhuma narração sobre o surgimento dos sinais de pontuação. Quando criança, acreditava que tudo que existia tinha pai e mãe. Então, era comum me perguntar: “Seria o ponto de interrogação filho da vírgula com o ponto final?” As dúvidas infantis, mais tarde me trouxeram o fascínio pela linguagem escrita. E hoje, arrisco-me a contar, de um modo nada científico, a gênese dos sinais de pontuação. Dizem que os homens criaram o ponto final para deixar claro suas afirmações ou negações: “Amor, cheguei. Estou cansado. Não quero barulho.” Então, a mulher apareceu e criou o ponto de interrogação. Desde então, as certezas nunca mais foram absolutas e, por isso mesmo, nasceram as perguntas: “Onde você estava? Com quem?O que fez para se cansar assim?” O homem percebeu nesse momento que precisava de uma pausa para pensar... não poderia responder de supetão e correr o risco de perder a cabeça. Foi assim que ele criou as reticências: “Bem... amor... eu estava... parado... Isso... parado no trânsito.” A mulher, ser inteligente e mais desconfiado do mundo, para expressar seus sentimentos de incredulidade e, às vezes, de ira, fez surgir o ponto de exclamação: “Tudo bem, querido! Já ouvi sua historinha, agora eu quero a verdade! O homem ao observar a ira da mulher, notou que ela falava sem parar, quase não dava tempo para ele respirar e pensar nas respostas. Tentou então, colocar nas falas da mulher, pequenas pausas separando palavras semelhantes e, assim, criou as vírgulas: “Seu safado, cachorro, mentiroso, sem-vergonha!” Há quem diga também que foi nessa época que criaram algumas figuras de linguagem. A hipérbole, pela mulher: “Já te falei mais de mil vezes que não sou boba”. A ironia misturada com metáfora, também pela mulher: “Fique tranqüilo! Pode dormir em paz enquanto não descubro o nome da vaca que vive parando o seu trânsito!” E, por fim, o eufemismo pelo homem: “Calma, meu bem! Eu nunca faltaria com a verdade contigo, nem quando você passar dessa para a melhor!” Ah, mas isso é outra história que contarei outro dia. Afinal, o trânsito já está lento e eu não posso me atrasar para chegar em casa.
Escrito por Apê às 16h37
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História e fofoca: do portão ao ORKUT!
A globalização da fofoca
 Na atualidade é raro o ser humano que nunca tenha ouvido falar em globalização. Na escola o tema é debatido, principalmente, pelos professores de geografia. Os mestres explicam aos alunos que a globalização tem “diminuído” as distâncias e “acelerado” o tempo. Para elucidar bem o fenômeno são dados os mais variados exemplos. Porém, nunca ouvi nenhum professor relacionar a globalização com outro fenômeno de escala mundial: a fofoca. O termo é antigo visto que já existia desde os primórdios da humanidade. No entanto, a globalização tem transformado a antiga fofoca num fenômeno de escala global: a fofocalização. Sim, caros leitores! Assim como o aperfeiçoamento dos meios de transporte possibilitou a “diminuição” das distâncias por meio da “aceleração” do tempo, a evolução dos meios de comunicação propiciou o aumento da fofoca por meio de sites de relacionamentos. Se antigamente tínhamos os fofoqueiros de portão (especialistas em fofoca diária), hoje temos os bisbilhoteiros de Orkut, por exemplo. Apesar de serem diferentes entre si, cumprem a mesma medíocre função e, por isso mesmo, podem ser comparados. A fofocalização é um processo que parte do particular para o coletivo e pode atingir a vida de uma ou várias pessoas ao mesmo tempo. O fofoqueiro de plantão derruba todas as barreiras – virtuais ou reais - e espalha a fofoca ao maior número de pessoas possível. Talvez a explicação teórica, sem um exemplo real, não o ajude a entender como o fenômeno acontece, por isso, relatarei a seguir uma situação verídica: “Outro dia, um amigo, acometido de uma enfermidade contagiosa, ficou impossibilitado de comparecer ao trabalho por uns dias. Aproveitou o tempo vago para colocar umas fotos antigas de uma viagem que fizera para um país estrangeiro no Orkut. Indiferente ao processo de fofocalização, ele voltou a trabalhar e ficou surpreso ao ser indagado pela chefe sobre o real motivo de sua licença médica. A fofoca que corria nos bastidores é que ele teria ido viajar e não estaria doente coisa alguma.” Após explicar a chefe que a foto era de uma viagem antiga ao exterior, ele ficou indignado com a situação e tentou entender o que tinha acontecido. Ao me contar, logo conclui que se tratava do fenômeno atual de fofocalização. O fofoqueiro de Orkut viu suas fotos (creio eu com inveja!) e sem checar suas fontes, espalhou para todo mundo – inclusive para a chefe - que ele estava viajando. Analisando bem as pessoas que se prestam a tal serviço – fofocar – percebemos que se trata, muitas vezes, de pessoas infelizes, pouco inteligentes, pois nem sabem checar suas fontes e irresponsáveis porque não se preocupam se a sua atitude vai prejudicar alguém. Enfim, ao escrever tal crônica quis brincar por meio de um neologismo (fofocalização) com uma atitude humana comum em diferentes meios sociais, porém, que pode prejudicar a vida de muitas pessoas. Fica o alerta a todos sobre a fofoca e seus malefícios e, também, um convite aos professores de geografia para um estudo mais minucioso sobre a relação existente entre os processos de globalização e fofocalização.
Escrito por Apê às 10h59
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Literatura na escola: a ficção invadindo a realidade!
QUEM É CAPITU?  Na correria do dia-a-dia, entre um turno de trabalho e outro, me deparo com uma pergunta feita por uma adolescente a outra: Quem é Capitu? Apressado para não chegar atrasado ao trabalho, não ouço a resposta àquela pergunta feita de forma intrigante. Penso, então, na minha decepção como professor se ouvisse de uma criança que saísse da pré-escola uma pergunta semelhante, como por exemplo, “Quem é a Cuca?”. Mais inconformado ainda fico quando me lembro que já fui ao julgamento de Capitu. Recordo-me como se fosse hoje. Aquele tribunal lotado – na certa por causa da minha timidez que fazia qualquer número de pessoas ser triplicado – defesa e acusação frente a frente duelavam por meio de suposições, muitas infundadas, em busca de uma única resposta: Capitu traiu ou não Bentinho? Ao centro do tribunal e sob olhares julgadores, estava Capitu. E como já era de se esperar, ela alegava inocência. Já o marido, em prantos, a acusava veemente de traição apontando as semelhanças físicas entre o suposto filho do casal e o amigo Escobar como prova. Como na época do acontecido nem se sonhava com os testes de paternidade atuais, a dúvida pairava no ar. Eis que então, nos últimos instantes do julgamento, a defesa tira da manga uma carta surpresa: Ninguém mais, ninguém menos que Machado de Assis aparece no tribunal e sentencia que em sua obra a dúvida é a única certeza que se pode comprovar. Tudo que fora dito a mais, seria apenas mera suposição. E como todos são inocentes até que se prove o contrário, num golpe de genialidade, a defesa consegue a absolvição de Capitu. Talvez por ter vivenciado uma história narrada a mais de cem anos atrás e compartilhado com amigos no presente sensações inenarráveis trazidas pela leitura da obra de Machado de Assis, dentro de uma escola, eu não possa me resignar com a pergunta daquela adolescente. Inconformado, pergunto-me “Onde estará Capitu?”. Na minha adolescência ela extrapolou a barreira do imaginário e se materializou naquele tribunal. A escola real foi recriada com doses de ficção em minha mente e pude então, assim como Capitu, superar a barreira espaço-temporal e voltar ao passado para tentar compreender o presente. E, hoje, passados alguns anos, ainda me recordo com saudades daquele tempo em que realidade e ficção eram apenas dois lados de uma mesma moeda. Para a adolescente anônima que me inspirou a escrever esta crônica, eu te respondo com ar de Machado de Assis que já fui: Capitu é uma personagem eterna porque guarda em si uma qualidade que aguça a curiosidade do ser humano. A dúvida!
Escrito por Apê às 10h53
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"Liberdade pra dentro da cabeça" e fim da Falsa Democracia!
Apesar de vocêS 
(...)Apesar de você Amanhã há de ser outro dia. Ainda pago pra ver O jardim florescer Qual você não queria Você vai se amargar Vendo o dia raiar Sem lhe pedir licença E eu vou morrer de rir E esse dia há de vir antes do que você pensa Apesar de você Amanhã há de ser outro dia Você vai ter que ver A manhã renascer E esbanjar poesia (...) (Trecho da música Apesar de Você) A música é na atualidade a arte mais democrática. Por meio da música as pessoas se entretêm, emocionam-se e deveriam também refletir. Vários compositores ao longo da história do nosso país tiveram na música a oportunidade de expor seus pensamentos “proibidos” na época por uma censura política. Entre eles, destaco Chico Buarque de Hollanda que em 1970 lançou “Apesar de você”. A canção que criticava o totalitarismo do regime militar foi censurada e Chico Buarque exilado. Passados quase 40 anos, a canção continua atual porque a liberdade de expressão é um direito ainda a ser assegurado em nosso país. Questionar é ainda um ato subversivo em alguns ambientes. A diferença é que os novos censores se escondem em cargos “democraticamente” escolhidos pelo povo. A contradição que poderia gerar o conflito e criar novos paradigmas é sutilmente manipulada de modo que o totalitarismo torna-se na visão do povo alienado um ato democrático. Em versos, Chico Buarque cantava “Hoje VOCÊ é quem manda| falou, ta falado| não tem discussão” e por incrível que pareça continuamos a obedecer sem questionar o VOCÊ. Muitos, aliás, nem sabem quem é o verdadeiro VOCÊ. Os versos “A minha gente hoje anda| falando de lado| e olhando pro chão, viu” retratam não mais o medo da opressão e sim a vergonha dos muitos escândalos atuais de corrupção que assistimos em doses diárias pela televisão e que têm sido copiados em escala menor por VOCÊS em cidades interioranas. O compositor ansiava pelo momento em que poderia livremente expressar o que pensa e sente: “Quando chegar o momento| Esse meu sofrimento| Vou cobrar com juros. Juro!” Hoje a falta de visão política e a memória fraca dos brasileiros permitem que o sofrimento seja perene e a revindição é esquecida logo após a eleição. Enfim, Chico Buarque, assim como eu, vislumbra uma sociedade no futuro na qual as pessoas poderão soltar o “grito contido” e ver “o jardim florescer” apesar da tirania democrática dos muitos VOCÊS que existem na sociedade atual.
Escrito por Apê às 23h24
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PRA NÃO DIZER QUE EU NÃO FALEI DO CRÉU
O sinal havia acabado de tocar. Um a um os alunos saiam em direção ao pátio da escola para tomar o lanche e brincar um pouco durante o recreio. Silencioso em meus pensamentos, fechei a porta da sala e comecei a caminhar por entre aquele mar de crianças eufóricas. Foi então, que observei atentamente um garoto cantar os versos de uma música que mais tarde não saiu da minha cabeça: (...) Pra dançar créu tem que ter disposição Pra dançar créu tem que ter habilidade Pois essa dança, ela não é mole não (...) ( Dança do Creu, Mc Créu) Ao chegar à sala dos professores, entre um cafezinho e um bate papo, ouço os lamentos de uma professora muito experiente e dedicada à profissão. Inconformada com o comportamento de alguns alunos e da omissão cada vez maior da família no processo de educação dos filhos, a professora argumenta que a tarefa de educar tem sido cada dia mais difícil e que tem exigido novas habilidades dos professores. Mais uma vez o sinal soa e interrompe a discussão. Volto para a sala de aula e retomo as minhas atividades com os alunos. À tarde, já em outra escola, me preparo para entrar na sala de aula e vejo uma mãe nervosa com um filho em prantos querendo algo que no momento ela não poderia dar. Ela me entrega a criança como se deixasse um peso e, também, desabafa dizendo “SER PROFESSOR NÃO DEVE SER FÁCIL, ACHO QUE NÃO TERIA PACIÊNCIA!” Educadamente, sorrio e penso “SER PAI E MÃE TAMBÉM NÃO DEVE SER FÁCIL, PORÉM, É UMA OPÇÃO QUE EXIGE PACIÊNCIA E DEDICAÇÃO!”. Trabalho mais um período e chego em casa exausto, porém, com a sensação de dever cumprido. Para relaxar, ligo o som enquanto tomo meu banho. As lembranças de mais um dia de trabalho ainda estão claras em meu pensamento. Tento me desligar do mundo cantarolando a canção que ouvia no momento: “Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais, braços dados ou não Nas escolas, nas ruas, campos, construções Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora que esperar não é saber Quem sabe faz a hora não espera acontecer...” ( Pra não dizer que não falei de rosas, Geraldo Vandré) Eis que me pego a rir sozinho no banheiro ao associar meus pensamentos às letras das músicas que ouvira durante o dia. Lembrei-me da euforia do garoto ao cantar “A dança do créu”, da exaltação da professora ao comentar a falta de limites das crianças e da irritação da mãe com a birra do menino por motivo fútil. Seguindo meus devaneios, numa lógica bem particular, e parafraseando a música, conclui que: Pra ser professor (ou pai e mãe que seja) tem que ter disposição Pra ser professor tem que ter habilidade Pra ser professor tem que ter Paciência Pra ser professor tem que ter Responsabilidade Pra ser professor tem que acredita em si e no outro Pra ser professor tem que ter bom humor E entender que, às vezes, é melhor rir pra não chorar Afinal, essa profissão, ela não é mole não! E, para não dizerem que só falei do créu, escrevi esta pequena crônica a qual dedico a todos os meus colegas de profissão que fazem a caminhada valer a pena porque, assim como eu, acreditam que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”
Escrito por Apê às 00h09
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Discussão científica?
ATÉ A TERRA ESTÁ ESTRESSADA! 
Sempre admirei a capacidade inquestionável de muitos cientistas que conseguem dizer muito sem explicar nada. Mas confesso que, às vezes, eles se superam e soltam verdadeiras pérolas científicas. Nessa semana quando moradores de diferentes estados foram surpreendidos pelos tremores de terra, também denominados cientificamente de terremotos, surgiram diferentes explicações para tal fenômeno. Os cientistas mais tradicionais, preocupados com o corpo teórico do fenômeno natural, bradaram “Um sismo, também chamado de terremoto ou terramoto, é um fenômeno de vibração brusca e passageira da superfície da Terra, resultante de movimentos subterrâneos de placas rochosas, de atividade vulcânica, ou por deslocamentos (migrações) de gases no interior da Terra, principalmente metano. O movimento é causado pela liberação rápida de grandes quantidades de energia sob a forma de ondas sísmicas.” A dona de casa, que mal percebera que a terra trepidara, estaria até agora se perguntando o que seriam essas malditas placas rochosas que de vez em quando resolvem sacolejar e aterrorizar pessoas em diferentes lugares do mundo se tivesse ouvido as explicações de tais cientistas na televisão. Por outro lado, na ânsia de transpor o obstáculo imposto pela linguagem nada coloquial do mundo científico, surgem os “cientistas modernos” que a todo custo buscam transformar explicações científicas em “receitas culinárias”. Para estes cientistas, o fenômeno natural “tratou-se do tremor da terra que estava sob alto estresse e quebrou-se em alguma parte do planeta causando os tremores sentidos por algumas pessoas.” Fico imaginando, também, a indignação da dona de casa se perguntando por que será que a terra estava estressada e o que ela tinha a ver com isso para estar sentido os “chiliques da terra.” Enfim, um fenômeno natural como o terremoto, dependendo da forma como é abordado, pode se transformar em algo SOBRENATURAL para a população, ou por causa da explicação científica incompreensível para grande parte das pessoas ou até mesmo pela simplificação exagerada e sem fundamento dada por alguns “cientistas modernos” em suas explicações. Nos dois casos, parece que terremoto é algo de outro mundo e, isto sim me estressa!
Escrito por Apê às 00h05
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A sabedoria popular já alerta: "Quem vê cara, não vê coração!"
DUAS CARAS E NENHUMA VERGONHA!  Duas caras! É assim que popularmente são chamadas algumas pessoas que não prezam tanto pelo caráter e tem como atributos principais a mentira e a falsidade. Talvez até pelo sucesso de uma telenovela atual, a expressão tem ganhado força nas diferentes camadas sociais. O leitor talvez não consiga imaginar por qual motivo estou escrevendo sobre tal assunto. Porém, após ler os dois “causos” que relatarei, entenderá a indignação que me fez escrever. O primeiro, ouvi de um colega de trabalho. Conta ele que fora a um velório de um amigo próximo. Tudo transcorria bem, na medida do possível. A família e os amigos mais íntimos, visivelmente abalados, esperavam pela chegada do corpo do ente querido no velório. Eis que surge, então, entre os presentes, um rosto anônimo de uma senhora já idosa que timidamente senta-se perto dos familiares à espera do defunto. Como se fosse contagiada pela emoção do local, a velhinha começa, também, a chorar copiosamente. O corpo do falecido chega e todos vão ao seu encontro para dar a última despedida. Nesse momento, as lágrimas da velhinha secaram e ela calmamente começa a abrir as bolsas dos presentes sem nenhuma cerimônia. Não pensem que a senhora estava à procura de lenços ou algo semelhante para secar as lágrimas. A malandra estava aproveitando o momento de descuido da família para roubá-los. Sem acreditar no que estavam presenciando, familiares chamaram a polícia e a velhinha duas caras fora presa ali mesmo no velório, em flagrante. O segundo relato, ouvi em um momento de descontração na faculdade quando comentávamos sobre assuntos engraçados que já nos tinham acontecido. Uma amiga disse que a mãe estava fazendo compra num famoso supermercado quando sentira a necessidade de ir ao banheiro. Ao adentrar no boxe do banheiro, colocou sua bolsa no chão. Foi então, que notara uma mão indiscreta surrupiar pelo vão da parede a bolsa dela com dinheiro e documentos. Apavorada, a mãe saiu em disparada em busca de sua bolsa e a avistou no ombro de uma mulher jovem, loira, charmosa e, digamos, muito distraída. A jovem, ao ser parada aos gritos, dissimuladamente, dissera que por distração pegara a bolsa da outra. Confesso que ao ouvir as duas histórias, achei inicialmente hilárias. Depois comecei a me indagar como poderiam existir pessoas assim: dissimuladas ao extremo ou como dizem por ai, pessoas duas caras. Inconformado com que ouvira, comecei a recontar essas histórias para outros amigos e, para minha surpresa, ouvi outras tão mirabolantes quanto estas que relatei. Histórias de pessoas que fazem de tudo para se dar bem às custas de outras. Indivíduos desprovidos de qualquer senso moral e que agem pensando apenas no bem próprio. Anônimos ou conhecidos, sem limite de idade, independente de sexo, cor ou religião, eles estão por ai, nos cercando e esperando o melhor momento para usar umas de suas caras. A sabedoria popular os chama de duas caras e eu vos digo, caros leitores, que tomem cuidado porque eles não têm vergonha em nenhuma das supostas caras.
Escrito por Apê às 23h54
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Recordando a infância...
O que o passarinho não me contou!

Ah infância! Momento terno e, para muitos, inesquecível. Para mim, no entanto, que não tenho a invejável “memória de elefante”, as recordações dessa época são poucas. Nada melhor, no entanto que uma música para reavivar reminiscências que pareciam esquecidas. Sim! Uma música do meu tempo de criança e que só esses dias pude ouvi-la novamente. Em meu interior um misto de saudade e incredulidade quanto ao meu gosto musical infantil. A letra era assim... “Um dia encontrei Um passarinho que me disse assim: Não fique triste não Depois da tempestade Vem um dia claro de verão, para que chorar então? Ele me contou que lá no meio da floresta Tinha uma tribo que vivia numa festa Uga uga ô É a tribo do amor
Todo mundo é bom E todo mundo é verdadeiro Todo mundo igual Não tem segundo nem primeiro Uga uga ô É a tribo do amor (...) (Tribo do amor, Xuxa) E hoje, talvez por viver num mundo bem diferente daquele meu mundinho infantil, não posso deixar de me indagar sobre o que teria acontecido com esta tribo do amor que eu tanto ouvia em minha meninice. Se fosse raciocinar como as crianças, diria que juntamente com a dizimação dos povos indígenas, esta tribo teria sido extinta do planeta. Ou, talvez, abduzida por alguma nave alienígena. Mas, o que mais me intriga é que o passarinho da música só falou da tribo do amor. Ele se esqueceu de falar dos outros seres que também habitam a floresta. Os anos foram se passando e, lentamente, fui conhecendo alguns desses seres, a maioria animais. O passarinho não me contou que na floresta havia alguns macaquinhos que vivem pulando de galho em galho porque não têm opinião formada ou simplesmente preferem ficar a espreita do melhor lugar para pendurar o seu rabo. O passarinho não me contou que no caminho para a tribo do amor, poderia ter algumas serpentes prontas para dar o bote em presas indefesas. E que, portanto, todo cuidado seria pouco. O passarinho também não me contou dos papagaios que tagarelam muito e fazem pouco.( Não sei por que, me lembrei que estamos em um ano eleitoral!) Mas descobri que o passarinho não havia me contado também sobre as lindas borboletas que suavizam com sua beleza a vida na floresta. E que nos mostram que a mudança faz parte do crescimento e nos encaminha para uma nova fase da vida. Ele também não tinha me contado sobre a existência de pequenas formigas que nos ajudam a trilhar o caminho com sabedoria, tenacidade e, principalmente, humildade para perceber que sempre existe alguém maior que nos ama e protege de qualquer perigo da floresta. Quanto à bondade e a igualdade presente naquela tribo do amor, tenho a esperança de encontrar outras crianças que, assim como eu acreditei e acredito, possam crer na possibilidade de um mundo melhor e mais justo no qual, serpentes, macacos e papagaios não ludibriem tantas pessoas. Pois só assim, teremos um mundo “sem segundo nem primeiro.” E para aqueles que pensam que vi algum passarinho e por isso escrevi esse texto, eu vos digo que vi sim. E era verde!
Escrito por Apê às 23h48
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Para todos os telemaníacos...
O MANÍACO TELEVISIVO

Diziam alguns que o sujeito era apenas esquisito. Outros juravam que se tratava de um maníaco. Porém, o que chamava mesmo atenção era a paixão que ele manifestava pela televisão. Diante de um aparelho televisor ficava estático. Conta-se, inclusive, que desde criança o eletrodoméstico exercia tão grande fascínio que a mãe o deixava horas em frente para distraí-lo Já adulto, aquele homem só respondia às pessoas fazendo alusão aos programas de TV que assistia em casa. Certo dia, ao sair da padaria, ouviu dois senhores comentar sobre o caso de um pai e uma madrasta que, covardemente, teriam assassinado uma criança indefesa. Com um semblante triste, porém mostrando revolta e indignação no olhar, ele teria dito: - HOJE EM DIA, infelizmente, TUDO É POSSÍVEL! Em outra ocasião, causara a maior confusão ao gritar a todos os presentes em uma Instituição de Saúde, que tinha PÃNICO, de ser atendido por médicos tão mal preparados, e que isto só acontecia porque a administração daquele lugar era uma ZORRA TOTAL e o povo reprimia o DESEJO PROIBIDO de reclamar. Exaltado, foi levado para a delegacia. O delegado explicou que ele não poderia agir daquele jeito dentro de um hospital. Contrariado, mas não vencido, o homem tentou explicar sua reação: - CUSTE O QUE CUSTAR, defenderei meu direito constitucional de livre expressão. Não vivo num mundo de FANTASIA, sei que AQUI AGORA, talvez o senhor, sentado ai nessa cadeira, não possa me entender. Mas a situação do povo que precisa do atendimento daquela Instituição, não é BELEZA PURA. Como ter um DOMINGO LEGAL sem saúde? Seria FANTÁSTICO se pudéssemos ser bem atendidos sem antes reclamar. Porém, não sou do tipo de pessoa DUAS CARAS. O que tenho pra dizer, digo SEM CENSURA. Trata-se apenas de uma reação, um TOMA LÁ, DÁ CÁ da vida. Se sou bem atendido, não tenho razões para ser mal educado. Entende? O delegado observou atentamente aquela criatura, e ao contrário do que pensava anteriormente, percebeu que se tratava de um sujeito comum. Talvez um pouco excêntrico, porém, que gozava de plena consciência dos seus direitos enquanto cidadão. Viu também alguém que, diferente de muitas pessoas, não se tornou alienado a situação em que vive por causa da televisão. Entretanto, o que mais lhe tocou não foram suas palavras, mas sim o seu olhar: um olhar triste e solitário de quem resolveu trocar as infinitas possibilidades de relacionamentos, proporcionadas pelo contato com as pessoas, por um único relacionamento frio e subjetivo com um aparelho de televisão. Sem saber o que dizer exatamente naquele momento, o delegado sorriu e se despediu daquele homem de uma forma que ele entenderia: - Pode ir! Você está liberado. Só lembre-se que na vida não há VALE A PENA VER DE NOVO. Por isso, tente seguir os CAMINHOS DO CORAÇÃO, sendo MAIS VOCÊ. Procure, também, ter QUERIDOS AMIGOS e, se possível, uma GRANDE FAMÍLIA!
Escrito por Apê às 23h39
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Uma história que a vovó não contou!
UM CONTO DA REALIDADE BRASILEIRA 
Era uma vez uma menina que não morava numa floresta porque todas as que existiram antes dela nascer, o homem havia devastado. O reino onde ela morava parecia cada vez mais distante... distante do poder público. A pobre garotinha pobre perdera seu pai ainda bebê para o tráfico de drogas, porém, crescera ouvindo que era brasileira e que não poderia desistir. Um dia, sua mãe lhe pediu que fosse até o barraco de sua avó aposentada: - Filha, vá à casa de sua avó buscar algo pra gente comer. Mas, tome cuidado. Desça o morro sem conversar com os nóias e suba sem falar com os gambés. A menina desceu o morro silenciosamente, cruzou a Linha Vermelha desviando-se dos perigos da calada da noite e, finalmente, chegou ao barraco da avó. Bateu à porta e ouviu uma voz fraca e rouca responder: - Entre minha querida! Só tome cuidado pra não derrubar a porta! Ao entrar no barraco, a menina se horrorizou com o estado em que sua querida avó se encontrava. Atônita, perguntou: - Vovó, que bracinhos mais magros são estes? - É minha netinha, isso é o resultado de alguns anos sofridos, muitos deles passando fome. - Vovó, e estes olhos vermelhos? - Calma minha netinha, não são de drogas. Estou apenas com conjuntivite! - Vovó, e essas manchas vermelhas espalhadas pelo corpo todo? - Ah... minha netinha, o médico suspeita que seja dengue. Mas só saberei disso daqui uma semana quando sair o resultado. Isto é, se eu resistir. - Nossa vovó! A senhora é uma verdadeira heroína! - Não minha querida, eu sou apenas mais uma brasileira pobre que todos os dias luta para sobreviver. - Mas a senhora não desiste de lutar, não é vovó? - Não querida! Porque aqui onde vivemos desistir de lutar é morrer e, apesar das circunstâncias, amo viver. A menina abraçou sua avó como se fosse a última vez que a visse. Pegou no armário um pouco de arroz e feijão, despediu-se dela e tomou o caminho de casa. Enquanto cruzava a avenida, com o pequeno embrulho debaixo dos braços, sentiu a cabeça pesar como se estivesse desmaiando. Soltou o pacote e apertou a mão contra o peito. Apavorada, percebeu que sangue escorria entre seus dedos. Olhando para o lado, viu a singela figura de sua avó de braços abertos balbuciando: - Minha querida, eu sabia que deveria te esperar. Vamos? ********************************************************************** Como meu senhor? O conto termina assim. Mas nem apareceu o lobo? Termina assim mesmo, cara leitora. E é para mostrar que hoje em dia, desde muito cedo algumas crianças se deparam no seu dia-a-dia com realidades tão tristes, que nenhum lobo mau, por pior que ele seja, pode assustar tanto quanto a sua própria realidade. Triste? Sim. Porém, real!
Escrito por Apê às 23h24
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Refletindo sobre o que aprendemos na escola...

A gramática da vida A escola é o lugar onde se aprende muitas coisas. A principal delas deveria ser refletir sobre quem somos. Para isto, nada melhor que uma aula de gramática, não é mesmo? Calma... não estou louco. Apenas estive pensando sobre algo que todos que passam pelos bancos escolares estudam: os sujeitos e os seus predicados! Nascemos SUJEITOS INDETERMINADOS. O amor, a compreensão e os ensinamentos das pessoas com quem convivemos acabam por nos moldar e transformar em SUJEITOS DETERMINADOS. Há que se reforçar que essa metamorfose do sujeito pode não ocorrer se limites não forem colocados na hora certa. A timidez e outros acontecimentos desagradáveis, ao longo da vida, nos tornam SUJEITOS OCULTOS. Nesse momento, só aqueles mais íntimos, os verdadeiros amigos, podem nos compreender e localizar enquanto sujeitos que somos. São eles, os “VERBOS DE LIGAÇÃO” do sujeito real com os seus verdadeiros predicativos. No atual mundo de ostentação, onde o verbo TER é sinônimo de SER e o núcleo dos sujeitos (A FAMÍLIA!) está a cada dia mais fragmentado, talvez, a tarefa mais difícil seja nos transformarmos em SUJEITOS SIMPLES. Casar-se e manter-se junto a outro núcleo de sujeito tem ficado também mais difícil, logo, temos poucos SUJEITOS COMPOSTOS na sociedade atual. Porém, o que mais me preocupa enquanto sujeito comum que sou, são os chamados SUJEITOS INEXISTENTES. Produtos descartados da sociedade capitalista atual e frutos do fenômeno da injustiça social, tais sujeitos não tem conseguido garantir sua existência no mundo com dignidade e, por isso mesmo, inexistem para muitos. São milhões de seres humanos que sobrevivem abaixo da linha da pobreza... são, em outras palavras, sujeitos que se tornaram objetos. Nas escolas, os professores precisam estar atentos para não repetirem na sala de aula a cruel divisão imposta pelo mundo do capital, no qual os sujeitos são afastados sumariamente de todos os seus predicativos porque não possuem OBJETOS DIRETOS e INDIRETOS de valores. Portanto, a reflexão nos aponta que não há sentido em se aprender Matemática, Português, História, Geografia e outras disciplinas quaisquer, se estas não puderem contribuir para a formação de seres verdadeiramente humanos ou, como diriam os gramáticos, sujeitos simples!
Escrito por Apê às 18h10
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Realidade ou ficção?

"VOCÊ NÃO VALE NADA ,
MAS EU GOSTO DE VOCÊ!” Entoada por milhões de brasileiros, e ouvida praticamente todos os dias na novela, a música de refrão fácil e penetrante pode nos fazer refletir sobre algo que está além da letra: o conformismo do brasileiro diante do que “não vale nada”. A Norminha, esposa infiel, é, por muitos, admirada e até reverenciada. Parece até que trair é natural e faz parte do instinto humano. É como se fidelidade fosse algo fora de moda e os poucos que ainda nela acredita seriam seres em extinção. No entanto, a Norminha não é quem mais me preocupa. Diariamente, vemos outros exemplos que também não valem nada, e parece que as pessoas gostam deles. Dias atrás, um deputado embriagado e sem a permissão para dirigir, conduzindo seu automóvel em alta velocidade, mata dois jovens. Tentando se livrar de uma punição maior, o irresponsável renuncia ao cargo. Como brasileiro tem memória curta, não me espanta que daqui uns anos, esse indivíduo possa estar ocupando outro cargo eletivo. Desse modo, a canção popular torna-se o mantra do conformismo brasileiro: você não vale nada, mas eu gosto de você.... E é assim também no dia-a-dia. Muitos estão descontentes com a situação que vivem em casa, no trabalho ou em suas relações sociais. Nem por isso, buscam saber “o porquê” disso. É mais fácil viver no mundo da ficção do que questionar a realidade a sua volta. Atentos a esta “mansidão” do povo, políticos e outros charlatões têm ganhado espaço e perpetuado suas safadezas. Ao contrário da Norminha, que trai apenas um (o marido!), esses indivíduos têm traído milhões de brasileiros diariamente. Vislumbro que tal situação só pode ser alterada a partir de uma mudança radical primeiramente no pensamento do povo: mudar o pensamento para depois mudar a realidade que o cerca. Nessa tentativa de provocar a reflexão e mudar esse pensamento, escrevi esta crônica. Primeiro por não concordar com esta idéia de que se o outro não vale nada, por que teríamos que gostar dele mesmo assim? Se pensarmos por outra perspectiva, poderemos concluir que também não estamos valendo muita coisa, ou melhor, não estamos nos dando valor devido! E, por fim, para deixar registrado que estamos vivendo uma época de inversão de valores, na qual, o errado parece certo, a ficção tende a superar a realidade e as pessoas perdem-se no mundo real porque ainda não aprenderam a lidar com o mundo interno que cada um carrega dentro de si.
Escrito por Apê às 03h39
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